Pintor

Quando, em 1926, um repórter de “O Jornal” indagou a Pedro Bruno onde ficava o seu local de trabalho, o pintor respondeu prontamente que era por toda a Ilha de Paquetá. Apesar de possuir um pequeno ateliê no Rio de Janeiro – na rua do Teatro, perto da Avenida Rio Branco – era na Ilha que o pintor encontrava mais e melhor inspiração para produzir. A Ilha, dizia ele, o fez pintor.

PINTOR Pedro Bruno pintando quadro - pedras ponte da saudadeO fato de ter sido um artista precoce – aos sete anos ensaiava os seus primeiros traços mas somente entrou para uma Academia aos trinta – preservou sua marca original e enfatizou sua forte personalidade, traduzida pictoricamente por uma técnica que se manteve muito pessoal, mesmo após a formação acadêmica. Sua alma de artista, poética, arrebatada e sensibilizável pelas belezas naturais, cresceu em meio à plenitude dos encantos de Paquetá, sem a interferência dos estudos artísticos formais. Foram assim conservados aspectos definitivamente presentes em suas obras, mesmo quando o tema não fosse a paisagem – a espontaneidade e a sinceridade.

Pedro Bruno, contudo, nunca permitiu que seu espírito romântico e imaginoso fizesse com que a sua energia inventiva ultrapassasse a precisão e o rigor na execução de um quadro. Não deixou-se fascinar pelos excessos e abusos das escolas sensualistas, das quais afastou-se deliberadamente. Sua arte transmite uma faceta muito particular de sua personalidade: o equilíbrio entre ser, ao mesmo tempo, um apaixonado e um asceta. Pedro impôs-se pela segurança técnica e também pela disposição do elemento sensorial – a vazão precisa da emoção criadora. Essa mescla resultou na criação de obras metrificadas, dotadas de harmonia, ritmo e vibração, características que lhes conferiram poder evocativo similar ao da música e ao da poesia, o de despertar sensações e emoções.

Seus quadros revelam uma perspectiva estudada, uma noção equilibrada de valores e um desenho correto e bem cuidado, ainda que com contornos indefinidos. O artista optou por obter as massas, os volumes, os valores e a profundidade unicamente com a cor. Sua pintura apresenta empastamento, com pinceladas cheias e rápidas dadas ao sabor da inspiração do momento, numa fatura macia e flexível. Pedro Bruno era um colorista forte e criativo, mas resolveu os problemas de cor com simplicidade e segurança – lançou mão de fineza, sutileza e limpeza. Suas cores são, ao mesmo tempo, quentes e suaves. A luminosidade é medida, firme e equilibrada, sem prejuízo para a intensidade.

Inspirado pelas belezas naturais de Paquetá, Pedro Bruno teve como primeiros temas as paisagens marinhas. Posteriormente às aulas de pintura dirigidas pelo mestre Baptista da Costa e aos estudos de “modelos vivos”, enveredou por temas novos, como o nu feminino, a maternidade e a infância, cenas do cotidiano, retratos de figuras importantes para a Arte e para a História e alegorias. Pedro Bruno foi um figurista delicado. A imagem da mulher é sempre dignificada e idealizada. O carinho maternal é registrado em delicadas cenas íntimas, profundamente emotivas. Tratou os nus femininos, de anatomia perfeita, com lirismo e nobreza. Os retratos de vultos históricos ou artísticos, como no caso de “Beethoven”, receberam uma abordagem que transcendeu a técnica: deu à figura principal valor fisionômico e naturalidade, refletindo um profundo estudo psicológico. Suas paisagens eram, geralmente, recantos da natureza ensombrados e bucólicos, ou alegres e saudáveis marinhas. Em ambos o artista revelou maestria na captação das infinitas variações cromáticas causadas pelos efeitos da luz ambiente sobre o mar, o céu e a vegetação. Nas obras alegóricas, como em “Pátria”, pela própria intensidade de abordagem que esses temas suscitam, Pedro Bruno imprimiu, além dos cuidados técnicos, uma interpretação comovente e vigorosa.

Segundo Pedro Bruno, o artista deveria seguir as regras básicas estabelecidas por uma escola, sem deixar de imprimir em seu trabalho, contudo, o sentimento pessoal e a personalidade. Na medida em que a Arte Moderna, segundo o artista, não pressupunha profundos estudos de desenho, forma e composição, ela não poderia efetivamente ser considerada Arte. O Impressionismo seria a única escola benéfica para o pintor, por “limpar” sua paleta, trazendo ao mesmo tempo vibração e cor para as telas. Pedro preocupava-se com a atuação de críticos sem conhecimentos técnicos, mas com poder de influência sobre a opinião pública. Considerava a Arte um refinamento. Seu sonho de Beleza incluía não só melhorar mais e mais sua produção, deixando-a como um patrimônio cultural para o país, mas também legar ao povo brasileiro a educação no gosto artístico. A este respeito tinha idéias tais como reprisar as exposições do Salão de Belas Artes nos subúrbios e nos bairros residenciais, levando a Arte ao encontro da população; promover a decoração de edifícios públicos através de cota promocional obrigatória para trabalhos de arte; lançar novos concursos artísticos; criar museus municipais; estabelecer o ensino do desenho nas escolas primárias e secundárias.

O cidadão brasileiro e o pintor que habitavam a alma de Pedro Bruno estiveram sempre em comunhão.

Pedro Bruno agia por amor à Beleza, pintava por amor à sua terra natal.

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